quarta-feira, 3 de março de 2010

A História Libertária de Cuba e os perigos da História Única


Nos últimos dias, conversando por e-mail com uma querida professora, percebi que as coisas que escrevi sobre Cuba, neste blog, correm o risco de favorecer aqueles que produzem uma história única para o país, com o intuito de desvalorizar a Revolução Cubana e a história libertária deste povo.
(para entender um pouco melhor o significado de história única: http://www.ted.com/talks/lang/por_pt/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html)

Meus textos são fruto da impressão "ao vivo" do país no momento atual, mas não se pode desconsiderar a importância política e social, mais do que isso, a importância histórica da Revolução Cubana para o continente americano e todos os países pobres do mundo.
As dificuldades que o povo cubano enfrentam hoje resultam, em grande parte, da luta contra o imperialismo americano e dos sacrifícios impostos àqueles povos que tentam exercer o direito de criar e construir suas próprias histórias, seus próprios caminhos.
O povo cubano foi e é corajoso! Os líderes e homens da Revolução foram bravos e vencedores!
Minha professora tem toda razão quando diz que precisamos ser gratos ao povo cubano pela coragem de enfrentar o Império e pagar um preço altíssimo por isso.














Quatro conquistas da Revolução impressionam muito diante de toda a história de desigualdades e corrupção da América Latina:
1) Todos os cubanos são alfabetizados e freqüentam a escola;
2) Todos os cubanos têm direito à saúde e usufruem desse direito (os gastos per capita em saúde no país estão muito abaixo dos gastos no Brasil e nos países desenvolvidos e, no entanto, os índices de saúde dos cubanos são excelentes. O fato de serem todos alfabetizados e de que a atenção básica em saúde é realmente efetiva contribuem para isso)
3) O país fez uma verdadeira reforma agrária
4) Os índices de violência no país são baixíssimos e a polícia não é corrupta (segundo os cubanos nos disseram)

Neste momento, o povo cubano está entrando em contato com algumas desigualdades e contradições que nós, dos países capitalistas, conhecemos bem. Elas estão sendo geradas, sobretudo, por conta da forma como o turismo está sendo implantado no país e pelo acesso ao CUC, que insere a população numa lógica da escassez e da abundância. Ao mesmo tempo, eles convivem com a falta de acesso às informações não produzidas pelos órgãos oficiais. Essas três questões geraram muitas angústias em mim e em meus companheiros de viagem. Passamos 20 dias refletindos sobre tudo isso. No último dia, nos deparamos com um muro, onde estava pichado: "Si no sabes, no te metas". Essa foi a nossa frase de conclusão da viagem...

Espero que algumas das coisas que escrevi aqui neste blog possam servir não para aqueles que querem escrever uma história única e mal contada sobre Cuba, mas para aqueles que querem refletir, junto com os cubanos, sobre como continuar a construção da história dos valentes, como definiu minha professora.

3 comentários:

  1. É Mari, sem dúvida é sempre interessante fazer reflexões sobre esse caso ímpar na história das Américas.

    O Brasil poderia utilizar os exemplos positivos de Cuba para arrancarmos definitivamente para o desenvolvimento. Já temos muita gente na escola, agora só falta fazer com que a qualidade do ensino melhore, o SUS tem muitos problemas, mas pelo menos estamos melhores que os Estado Unidenses quanto a universalização da saúde.

    O exemplo errado que estamos tentando copiar de Cuba e Venezuela é o esforço reinterado do Governo e do PT em calar a imprensa. No IV Congresso do PT voltou-se a falar em aumentar o poder do estado para controlar os meios de comunicação. Em todo o país do mundo no qual a imprensa é livre é natural que ela se oponha a situação. Imprensa livre é artigo de primeira necessidade para fiscalizar os atos do governo, sem ela corremos o risco de sermos obrigados a escutar horas e horas de discursos políticos em todos os canais, assim como ocorre na Venezuela.

    Mas me diz uma coisa. Como é o Estado em Cuba? A polícia você mencionou que não é corrupta (diferente da nossa, heheheh) mas e o governo? Uma vez eu encontrei com um Alemão em um vôo e ele estava indo prá Cuba, ele disse que se não rolasse propina num tinha negócio. Será que e isso mesmo?

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  2. Gabriel,

    Eu não sei como é que funciona essa questão da corrupção no Estado cubano. Outro dia li um artigo de um cubano que dizia que a corrupção é fruto de uma visão individualista da vida em sociedade, típica do sistema capitalista. Ele afirmava que o socialismo construído em Cuba é um exemplo ímpar e que um dos desafios é justamente manter a visão coletiva da política, afastando os riscos de corrupção. Eu não sei te dizer o quanto a corrupção em Cuba é um problema. Essa é uma questão interessante.
    O conflito entre a visão coletiva e a individualista é uma questão muito importante hoje em Cuba.

    bjos
    Mari

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  3. Mari,

    Gostei da colocação do artigo que vc leu "a corrupção é fruto de uma visão individualista da vida em sociedade, típica do sistema capitalista". É possível notar essa diferença de filosofia de vida quando se viaja a Cuba? Pessoalmente acredito que o individualismo do ser humano é um acessório que já vem de fábrica, substituí-lo pelo autruismo é tarefa difícil, principalmente quando não se tem a igreja para ajudar.

    Uma outra idéia que eu tenho, vendo de fora, é a seguinte. Como inspirar o desejo de construir e prosperar nos indivíduos se eles não vão conseguir bens materiais por se esforçarem mais? Como eles tentam resolver essa equação?

    Uma abraço
    Gabriel

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